Lendo texto do Bourdieu sobre as formas de reprodução econômica das sociedades tradicionais. Destaca-se a ausência do cálculo em função de um futuro abstrato, um ethos formado pela experiência e a tradição, a indissociabilidade dos valores econômicos às crenças coletivas (principalmente as religiosas, que no caso da comunidade argelina estudada pelo sociólogo, condena o espírito do cálculo – embora pratique o cálculo em si - como uma ofensa a Deus, cujos atributos afirmam uma distribuição harmônica das coisas do mundo); a endogamia de uma sociedade que vê com desconfiança o que está fora dela; a coesão grupal no que diz respeito ao ritmo temporal – fazer as coisas fora do tempo coletivo significa excluir-se do grupo e também o desrespeito a uma ordem social que se confunde com a ordem do mundo.
Refletindo dentro dos conceitos assimétricos que Reinhardt Koselleck utiliza para refletir a nova experiência do tempo inaugurada pela modernidade, a sociedade tradicional estudada por Bourdieu possui um horizonte de expectativas restrito e um alargado espaço de experiência, que marca a forte influência da tradição no cotidiano da vida social, e onde o futuro é percebido em termos escatológicos, pois visto que a ordem social confunde-se com a ordem do mundo disposta por Deus, a inovação é interpretada nos termos de uma afronta aos desígnios divinos. Bourdieu não foge muito dessas conclusões, afirmando que:
O receio de uma refutação objetiva, capaz de abalar a ordem estabelecida e de interromper o encadeamento das expectativas leva a ater-se, à custa de um restringimento sistemático do campo das aspirações, a um estado de coisas que possa ser dominado pela simples atualização dos esquemas tradicionais, e a excluir metodicamente as situações insólitas, que iriam exigir a invenção de novos esquemas. A adesão a uma tradição indiscutida implica a recusa a se travar abertamente a luta contra a natureza e conduz para a busca de equilíbrio à custa de uma redução das expectativas, proporcionada à fraqueza dos meios de ação sobre o mundo. Incessantemente ameaçada em sua própria existência, obrigada a dispensar toda sua energia para manter um equilíbrio audacioso com o mundo exterior, esta sociedade, obcecada pelo cuidado de subsistir, escolhe conservar para conservar-se, antes de transformar para transformar-se. (Pierre BOURDIEU, O Desencantamento do Mundo: Estruturas econômicas e estruturas temporais, São Paulo, Perspectiva, 1979, p.49)
Ainda segundo Bourdieu, uma sociedade que RECUSA-SE A TER HISTÓRIA!
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