Dia de pouco estudo. Ontem, terminei de ler e fixar “História como Sistema”, e no seu final inclui uma bela reflexão sobre a necessidade da razão histórica para suprir a crise da crença na razão naturalista. Visto que o ser ontológico do homem é o acontecimento, o drama, a mudança, não algo estático e fixo como o corpo ou alma, Ortega propõe a construção de outros conceitos que possam dar conta dessa dynamis, que não fixem substancialmente o fenômeno humano.
O que foi que nos fez compreender, conceber o nosso ser? Simplesmente contar, narrar que antes fui o amante desta ou daquela mulher, que antes fui cristão; que o leitor por si, ou pelos outros homens dos quais tem notícia, foi absolutista, cesarista, democrata, etc. Em síntese, aqui o raciocínio esclarecedor, a razão consiste numa narrativa. Frente à razão pura físico-matemática existe, portanto, uma razão narrativa. Para compreender algo humano, pessoal ou coletivo, é necessário contar uma história. Esse homem, essa nação faz tal coisa, e o faz porque anteriormente fez tal outra e foi de tal outro modo. A vida somente se torna um pouco transparente ante a razão histórica. (História como sistema, p. 48).
Desenvolvendo e remetendo sempre a “Idéias e crenças”, vai ser um excelente complemento as reflexões do meu trabalho, cujo título já está decidido: O problema das luzes no mundo luso-brasileiro em finais do Antigo Regime (1772-1819): As “idéias” e “crenças” de Antônio Luiz de Brito Aragão e Vasconcelos. A inspiração do título foi a obra do Febvre ( “o problema da descrença no século XVI: a religião de Rabelais”), e pretendo refletir sobre a importância das crenças, no sentido ortegueano, ou dos instrumentos mentais, numa acepção febvreana, na recepção das referências das luzes. O que é esse mundo luso-brasileiro de finais do Antigo Regime, quais são seus valores políticos fundamentais (levando em conta, é claro, sempre a diversidade), suas concepções de sociedade, qual o lugar que a religião e a ciência natural ocupam?
Hoje reli o artigo do meu orientador sobre os irmãos Cavalcante, e me deu algumas luzes. Estou em dúvida sobre o que ler amanhã. Talvez o Bourdieu sobre sociedades tradicionais, talvez alguma coisa do Geertz do “Saber Local”, ou o próprio Febvre (se bem que não sei onde meti a porra do texto). Enfim, sei também que tenho que dedicar um tempo à escrita do trabalho da Norma e do relatório. Os prazos estão aí.
Veremos....