Qualquer definição antropológica de cultura possuirá, dentre os seus significados, alguma menção ao “sistema de crenças”. talvez a aproximação com esse mesmo campo de saber, a Antropologia, tenha sido a maior responsável pelas mudanças ocorridas nos estudos e paradigmas da História, pelo menos desde o último quarto do século XX. Qualquer livro que discuta os caminhos traçados pela historiografia, principalmente a francesa, a americana, a inglesa e a brasileira, levantará este tipo de argumentação, atentando o lugar central que o simbólico adquiriu nos últimos tempos.
Estou ocupando-me da leitura de “Idéias e Crenças”, como já havia ressaltado anteriormente. Mesmo escrevendo na primeira metade do século XX, o filósofo espanhol elabora, em suas obras, um amplo painel sobre a “crise da modernidade”, elencando e refletindo suas diversas expressões, e que hoje vemos em discussão sob o termo “pós-modernidade”. Dentre as questões levantadas, uma parece central na reflexão que Ortega faz desse homem de finais do século XIX e primeiras décadas do XX: o seu comportamento anti-histórico, surgida nessa crença demasiada na razão e nas potencialidades do intelecto do homem, subtraindo aquilo que constitui a sua substância – a História.
“(...) sendo a substância do homem sua história, todo comportamento anti-histórico adquire nele um caráter de suicídio.” (Ideas y Creencias, p.498)
Nesse sentido, em “Idéias e Crenças”, Ortega buscou esclarecer essa distinção tão importante, que na maior parte das vezes se confundem e impedem-nos de enxergar o problema da melhor forma. Nesse sentido, afirma que as crenças não são idéias, pelo menos não idéias- ocorrências, surgidas voluntariamente da capacidade intelectiva do homem. O que caracterizaria a crença seria exatamente a inoperância de nossa vontade sobre ela. Não as formulamos, debatemos, mas estamos nelas, elas constituem a realidade em que vivemos, e por isso nos dá um lugar estável no mundo.
Não obstante, se a crença constrói esse “lugar estável” que sustenta toda a vida humana, a “Dúvida” surge também enquanto crença, numa função oposta, para desestabilizar a base assentada pela crença, produzindo-lhe buracos na realidade, na existência. E o que ocorre nesse instante, do homem ante o precipício produzido pela dúvida? Quando há dúvida, o homem se põe a pensar, utiliza o intelecto. “(...) ao cair na dúvida se agarra a ele como a um salva-vidas.” (Ideas y Creencias, p.394) E este é o lugar das idéias, cobrir os buracos da crença para continuar sua existência.
“As idéias são, pois, as <<coisas>> que nós de maneira consciente construímos, elaboramos, precisamente porque não cremos nelas.(...) Se adverte, desde logo, o caráter ortopédico das idéias: atuam ali onde uma crença se tem partido ou debilitado.” (Ideas y Creencias, p.398)
As idéias, sejam elas quais forem - morais, políticas, matemáticas – possuem um caráter de invenção. É resposta dada pelo homem ante o enigma da realidade desnuda, mundos “imaginários” e “internos” criados para assentar sua vida perante a existência. Logo, a partir desse mundo interior, se relaciona com o mundo exterior, como um instrumento ótico a enxergar-lhe. Algumas dessas idéias acabam-se constituindo crenças, ou seja, realidade.
Logo, idéias e crenças constituem-se em construções sociais e históricas. O mundo que recebemos, a realidade em que estamos, nos são legadas pelos homens do passado, dos seus esforços para preencher os buracos da crença. Nesse sentido, segundo Ortega, a consciência histórica é ter consciência de que se é herdeiro (Ideas y Creencias, p.400), necessário ao homem para topar com a realidade desnuda. O ofício do historiador, portanto, estaria em descobrir as crenças em que assentaram os homens do passado, principalmente para iluminar a “crença na razão” e a sua crise do momento em que está vivendo.
Agora, preciso pensar isso para o que estudo: as concepções políticas e jurídicas do mundo luso-brasileiro de finais do século XVIII e início do século XIX.
1) Concepções de sociedade [paradigma corporativo; paradigma individualista] e valores hegemônicos, como a honra e o privilégio;
2) Concepções políticas ainda em vigor, como as formas de governo, e as imagens com que se enxerga o poder (principalmente o corpo);
3) O lugar da religião e do passado (História) na relação do mundo luso-brasileiro com um contexto europeu mais amplo onde a fé na razão começa a realocá-la;
O que são idéias, o que são crenças para esse mundo!? O que nos difere dos antropólogos é o fato de que, apesar de enfocarmos a alteridade no tempo, buscamos compreender isso que herdamos, essa diferença escondida em alguma camada de nossa constituição.
Ref. José ORTEGA Y GASSET, Ideas y creencias (1940) IN Obras Completas de Ortega y Gasset, tomo V (1933-1941), Madrid, Revista de Occidente, 1964, 6ª edição. [LIDO E FICHADO PP.383-402)
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