domingo, 6 de fevereiro de 2011

31/01/2011

Lendo texto do Bourdieu sobre as formas de reprodução econômica das sociedades tradicionais. Destaca-se a ausência do cálculo em função de um futuro abstrato, um ethos formado pela experiência e a tradição, a indissociabilidade dos valores econômicos às crenças coletivas (principalmente as religiosas, que no caso da comunidade argelina estudada pelo sociólogo, condena o espírito do cálculo – embora pratique o cálculo em si - como uma ofensa a Deus, cujos atributos afirmam uma distribuição harmônica das coisas do mundo); a endogamia de uma sociedade que vê com desconfiança o que está fora dela; a coesão grupal no que diz respeito ao ritmo temporal – fazer as coisas fora do tempo coletivo significa excluir-se do grupo e também o desrespeito a uma ordem social que se confunde com a ordem do mundo.
Refletindo dentro dos conceitos assimétricos que Reinhardt Koselleck utiliza para refletir a nova experiência do tempo inaugurada pela modernidade, a sociedade tradicional estudada por Bourdieu possui um horizonte de expectativas restrito e um alargado espaço de experiência, que marca a forte influência da tradição no cotidiano da vida social, e onde o futuro é percebido em termos escatológicos, pois visto que a ordem social confunde-se com a ordem do mundo disposta por Deus, a inovação é interpretada nos termos de uma afronta aos desígnios divinos. Bourdieu não foge muito dessas conclusões, afirmando que:
O receio de uma refutação objetiva, capaz de abalar a ordem estabelecida e de interromper o encadeamento das expectativas leva a ater-se, à custa de um restringimento sistemático do campo das aspirações, a um estado de coisas que possa ser dominado pela simples atualização dos esquemas tradicionais, e a excluir metodicamente as situações insólitas, que iriam exigir a invenção de novos esquemas. A adesão a uma tradição indiscutida implica a recusa a se travar abertamente a luta contra a natureza e conduz para a busca de equilíbrio à custa de uma redução das expectativas, proporcionada à fraqueza dos meios de ação sobre o mundo. Incessantemente ameaçada em sua própria existência, obrigada a dispensar toda sua energia para manter um equilíbrio audacioso com o mundo exterior, esta sociedade, obcecada pelo cuidado de subsistir, escolhe conservar para conservar-se, antes de transformar para transformar-se. (Pierre BOURDIEU, O Desencantamento do Mundo: Estruturas econômicas e estruturas temporais, São Paulo, Perspectiva, 1979, p.49)
Ainda segundo Bourdieu, uma sociedade que RECUSA-SE A TER HISTÓRIA!

sábado, 29 de janeiro de 2011

29/01/2011

Dia de pouco estudo. Ontem, terminei de ler e fixar “História como Sistema”, e no seu final inclui uma bela reflexão sobre a necessidade da razão histórica para suprir a crise da crença na razão naturalista. Visto que o ser ontológico do homem é o acontecimento, o drama, a mudança, não algo estático e fixo como o corpo ou alma, Ortega propõe a construção de outros conceitos que possam dar conta dessa dynamis, que não fixem substancialmente o fenômeno humano.
O que foi que nos fez compreender, conceber o nosso ser? Simplesmente contar, narrar que antes fui o amante desta ou daquela mulher, que antes fui cristão; que o leitor por si, ou pelos outros homens dos quais tem notícia, foi absolutista, cesarista, democrata, etc. Em síntese, aqui o raciocínio esclarecedor, a razão consiste numa narrativa. Frente à razão pura físico-matemática existe, portanto, uma razão narrativa. Para compreender algo humano, pessoal ou coletivo, é necessário contar uma história. Esse homem, essa nação faz tal coisa, e o faz porque anteriormente fez tal outra e foi de tal outro modo. A vida somente se torna um pouco transparente ante a razão histórica. (História como sistema, p. 48).
Desenvolvendo e remetendo sempre a “Idéias e crenças”, vai ser um excelente complemento as reflexões do meu trabalho, cujo título já está decidido: O problema das luzes no mundo luso-brasileiro em finais do Antigo Regime (1772-1819): As “idéias” e “crenças” de Antônio Luiz de Brito Aragão e Vasconcelos. A inspiração do título foi a obra do Febvre ( “o problema da descrença no século XVI: a religião de Rabelais”), e pretendo refletir sobre  a importância das crenças, no sentido ortegueano,  ou dos instrumentos mentais, numa acepção febvreana, na recepção das referências das luzes. O que é esse mundo luso-brasileiro de finais do Antigo Regime, quais são seus valores políticos fundamentais (levando em conta, é claro, sempre a diversidade), suas concepções de sociedade, qual o lugar que a religião e a ciência natural ocupam?
Hoje reli o artigo do meu orientador sobre os irmãos Cavalcante, e me deu algumas luzes. Estou em dúvida sobre o que ler amanhã. Talvez o Bourdieu sobre sociedades tradicionais, talvez alguma coisa do Geertz do “Saber Local”, ou o próprio Febvre (se bem que não sei onde meti a porra do texto).  Enfim, sei também que tenho que dedicar um tempo à escrita do trabalho da Norma e do relatório. Os prazos estão aí.
Veremos....                                       

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

25/01/2011

Dia de pouco estudo. Quebrando a cabeça na parte mais filosófica de “História como sistema”, na discussão relacionada à ontologia tradicional sobre o ser (res). Faz a crítica ao naturalismo e ao idealismo, ambos herdeiros dessa tradição, que ao abordar o res como realidade autêntica, aliena-se da reflexão sobre a ação do intelecto na produção do res (como por exemplo, a idéia de natureza). Se a res, dentro da tradição filosófica discutida, constitui-se naquilo que existe de estático e fixo em toda a entidade, esta concepção parte da ação do intelecto sobre a realidade autêntica, e logo, mutável.
Porque o erro profundo do naturalismo é o inverso do suposto: não consiste em que tratemos as idéias como se fossem realidades corporais, mas antes ao contrário, consiste em que tratemos as realidades – corpos ou não – como se fossem idéias, conceitos; isto é identidades. (José Ortega y Gasset, História como Sistema/ Mirabeau ou o Político, Brasília, Editora Universidade de Brasília, Coleção Orteguiana, 1982, p.42)
Ortega propõe assim, uma “desintelectualização” do real, assumindo o caráter arbitrário deste. E qual seria a nova proposta de ontologia?
Trata-se de pensá-la urgentemente segundo se apresenta na sua primária nudez, mediante conceitos atentos unicamente a descrevê-la [logo, os conceitos não encarnariam o ser, diminuindo a ação do intelecto que manipula o real] e que não aceitem qualquer imperativo da ontologia tradicional.” (p.42)
Seria a razão histórica? Veremos nos próximos capítulos!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

24/01/2011

Fim da leitura da defesa do Luís Francisco. Muitas idéias para a dissertação e o trabalho final da Norminha. Deixe-me destacar um trecho interessante do final desta defesa:
(...) não peço que a compaixão vos cerre os olhos para não verdes o crime, nem que vos retenha a mão vingadora das injúrias sociais, rogo somente, que tenhais em vista, que a equidade ordena pesar em igual balança o mérito e demérito das ações, e segundo qual deles mais a inclinar definir-lhe o caráter peculiar. (DH, CIX, p.73)
A referência a equidade, constante nas defesas, remete a uma concepção de Justiça específica, onde determinados valores encontram-se incluídos, tais como a conduta (e a noção de honra nela inclusa) e o nascimento (dentro de uma concepção desigual de sociedade, onde o ofício e a origem social determinam o lugar do indivíduo e qualificam valorativamente seu discurso – no caso das defesas, dos testemunhos). Sobre a relação entre a noção de equidade prevalecente nos sistemas jurídicos do Antigo Regime e as sociedades organizadas sobre a naturalização da desigualdade – não entre os indivíduos, mas entre as ordens e corpos nos quais aqueles se vêem incluídos – afirma Giovanni Levi:
Pero el concepto surgió y tuvo importancia en sociedades que no reconocían la igualdad entre ciudadanos abstractos —según la cual la ley es igual para todos—, sino que, por el contrario, cargaban el acento en la desigualdad de una sociedad jerárquica y segmentada, en que convivían sistemas jerárquicos correspondientes a diversos sistemas de privilegio y de clasificación social: por tanto, una pluralidad de equidades según el derecho de cada uno a que se le reconozca lo que le corresponde sobre la base de su situación social y de acuerdo con un principio de justicia distributivo. (Giovanni LEVI, Reciprocidad Mediterránea, Hispania, Madrid, LX/1, núm. 204,2000, p.103-126.)
Acho que, por este lado, o caminho é o diálogo com os historiadores do direito (Paolo Prodi, Maurizio Fioravanti, etc.) e com os caras da Antropologia Jurídica (Hespanha, Clavero e Cia). O Ziller indicou-me contrapô-los. Preciso ler melhor para perceber as oposições. Vai dar um trabalho!
Enfim, acho que ainda dá para pegar um pouco do Koselleck, principalmente através da utilização de conceitos como classe, povo, guerra civil e os exemplos históricos dados pelo nosso nobre advogado e através principalmente dos argumentos sobre Dissimulação Honesta, esboçar algumas considerações sobre diacronia e sincronia, via Pocock e Cia. Muita pretensão!? Entusiasmo não falta, embora sempre com consciência histórica!
Próximas leituras
1)      Artigo do Guilherme sobre os Cavalcantes
2)      “História como Sistema”, Ortega y Gasset (releitura e fichamento)

domingo, 23 de janeiro de 2011

23/01/2011

Enfim voltando aos estudos, gradualmente, após alguns dias de puro desânimo. Estou lendo a defesa de Luís Francisco de Paula Cavalcante, o terceiro dos Cavalcante de maior representação em Pernambuco. Como esperava, a melhor defesa, a mais densa de exemplos, de argumentos próprios de tradição do pensamento político católico e ibérico. Destaque-se a rica presença dos argumentos em torno da dissimulação honesta, utilizada na justificação dos “fatos” dos Réus em uma situação extraordinária, ou seja, a rebelião, em nome da Restauração dos Estandartes Reais. Cabe destacar a consideração do mundo da política como um mundo moralmente imperfeito.
De mais, a política em regra sofre, e admite falsidades úteis, para evitar males de maior monta, certo é que o ideal da veracidade só se encontra na Utopia ou na República dos Severambes [Referente aos lugares imaginários das obras políticas do Thomas Morus e Vairasse d’Allais] (DH, CIX, p.60)
Infelizmente, faltam referências diretas, nomes de autores, obras, o que torna mais desafiante a empresa do historiador das linguagens políticas. Em breve colocarei as citações mais interessantes.
Boas notícias. Meu orientador olhou as fichas dos letrados que lhe enviei e indicou-me umas pistas sobre onde encontrar mais informações sobre eles. Se não der para ir à Bahia (embora com algum risco, espero que possa fazer isso). Meu grande amigo Vinnie está no Brasil, ótimo para me colocar novamente nos eixos.  

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

18/01/2011

Voltando aos estudos após fim de semana louco em Barra Mansa. Enfim, acabei de fichar “Idéias e Crenças”, animado com suas potencialidades. Por que existem Leis e ordenamentos jurídicos? Numa perspectiva mais antropológica, podemos pensar a lei como aquilo que serve para organizar a vida em sociedade, nutrindo-se de uma concepção coletiva de mundo, de divindade, de sociedade. Nesse sentido, é necessário pensar as leis dentro do sistema de crenças de determinada sociedade. Se em nossa sociedade, a formulação e a aplicação das leis tem por objetivo a organização racional da sociedade, onde o direito é visto como uma ciência e enquanto monopólio do Estado, constituída por um contrato, ; no Antigo Regime a força da tradição e uma concepção transcendente de mundo legitimavam diversas fontes do direito, como o costume, o direito comum, o direito canônico e o direito romano. Um direito cuja interpretação relacionava-se a especificidade de cada caso.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

14/01/2011

Qualquer definição antropológica de cultura possuirá, dentre os seus significados, alguma menção ao “sistema de crenças”. talvez a aproximação com esse mesmo campo de saber, a Antropologia, tenha sido a maior responsável pelas mudanças ocorridas nos estudos e paradigmas da História, pelo menos desde o último quarto do século XX. Qualquer livro que discuta os caminhos traçados pela historiografia, principalmente a francesa, a americana, a inglesa e a brasileira, levantará este tipo de argumentação, atentando o lugar central que o simbólico adquiriu nos últimos tempos.
Estou ocupando-me da leitura de “Idéias e Crenças”, como já havia ressaltado anteriormente. Mesmo escrevendo na primeira metade do século XX, o filósofo espanhol elabora, em suas obras, um amplo painel sobre a “crise da modernidade”, elencando e refletindo  suas diversas expressões, e que hoje vemos em discussão sob o termo “pós-modernidade”. Dentre as questões levantadas, uma parece central na reflexão que Ortega faz desse homem de finais do século XIX e primeiras décadas do XX: o seu comportamento anti-histórico, surgida nessa crença demasiada na razão e nas potencialidades do intelecto do homem, subtraindo aquilo que constitui a sua substância – a História.
“(...) sendo a substância do homem sua história, todo comportamento anti-histórico adquire nele um caráter de suicídio.” (Ideas y Creencias, p.498)
Nesse sentido, em “Idéias e Crenças”, Ortega buscou esclarecer essa distinção tão importante, que na maior parte das vezes se confundem e impedem-nos de enxergar o problema da melhor forma. Nesse sentido, afirma que as crenças não são idéias, pelo menos não idéias- ocorrências, surgidas voluntariamente da capacidade intelectiva do homem. O que caracterizaria a crença seria exatamente a inoperância de nossa vontade sobre ela. Não as formulamos, debatemos, mas estamos nelas, elas constituem a realidade em que vivemos, e por isso nos dá um lugar estável no mundo.
Não obstante, se a crença constrói esse “lugar estável” que sustenta toda a vida humana, a “Dúvida” surge também enquanto crença, numa função oposta, para desestabilizar a base assentada pela crença, produzindo-lhe buracos na realidade, na existência. E o que ocorre nesse instante, do homem ante o precipício produzido pela dúvida? Quando há dúvida, o homem se põe a pensar, utiliza o intelecto. “(...) ao cair na dúvida se agarra a ele como a um salva-vidas. (Ideas y Creencias, p.394) E este é o lugar das idéias, cobrir os buracos da crença para continuar sua existência.
“As idéias são, pois, as <<coisas>> que nós de maneira consciente construímos, elaboramos, precisamente porque não cremos nelas.(...) Se adverte, desde logo, o caráter ortopédico das idéias: atuam ali onde uma crença se tem partido ou debilitado.” (Ideas y Creencias, p.398)
As idéias, sejam elas quais forem - morais, políticas, matemáticas – possuem um caráter de invenção. É resposta dada pelo homem ante o enigma da realidade desnuda, mundos “imaginários” e “internos” criados para assentar sua vida perante a existência. Logo, a partir desse mundo interior, se relaciona com o mundo exterior, como um instrumento ótico a enxergar-lhe. Algumas dessas idéias acabam-se constituindo crenças, ou seja, realidade.
Logo, idéias e crenças constituem-se em construções sociais e históricas. O mundo que recebemos, a realidade em que estamos, nos são legadas pelos homens do passado, dos seus esforços para preencher os buracos da crença. Nesse sentido, segundo Ortega, a consciência histórica é ter consciência de que se é herdeiro (Ideas y Creencias, p.400), necessário ao homem para topar com a realidade desnuda. O ofício do historiador, portanto, estaria em descobrir as crenças em que assentaram os homens do passado, principalmente para iluminar a “crença na razão” e a sua crise do momento em que está vivendo.
Agora, preciso pensar isso para o que estudo: as concepções políticas e jurídicas do mundo luso-brasileiro de finais do século XVIII e início do século XIX.
1)      Concepções de sociedade [paradigma corporativo; paradigma individualista] e valores hegemônicos, como a honra e o privilégio;
2)      Concepções políticas ainda em vigor, como as formas de governo, e as imagens com que se enxerga o poder (principalmente o corpo);
3)      O lugar da religião e do passado (História) na relação do mundo luso-brasileiro com um contexto europeu mais amplo onde a fé na razão começa a realocá-la;
O que são idéias, o que são crenças para esse mundo!?  O que nos difere dos antropólogos é o fato de que, apesar de enfocarmos a alteridade no tempo, buscamos compreender isso que herdamos, essa diferença escondida em alguma camada de nossa constituição.
Ref. José ORTEGA Y GASSET, Ideas y creencias (1940) IN Obras Completas de Ortega y Gasset, tomo V (1933-1941), Madrid, Revista de Occidente, 1964, 6ª edição. [LIDO E FICHADO PP.383-402)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

13/01/2011

Depois de rodar todas as bibliotecas do Rio de Janeiro, acabei encontrando as obras completas do Ortega y Gasset no torrent. Acabei perdendo a manhã atrás daquela procura, mas enfim a aflição acabou.
O tipo de argumentação que Ortega y Gasset utiliza é muito interessante e encantadora. O filósofo espanhol constrói seu argumentos com detalhadamento, a partir da compreensão “do que é” e da identificação e esclarecimento “daquilo que não é”, especificando e dando forma ao que quer dizer, como que antecipando as incompreensões do leitor. Parece uma estrada talhada e sinalizada para que o leitor não se perca.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

12/01/2011

É madrugada ainda, o sono custa a pegar, talvez pela consciência pesada de não ter estudado ontem (embora para mim ainda seja dia 11, visto que não dormi). Lendo e fichando a defesa de Luis Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque, filho de Francisco, cuja defesa li e fichei anteriormente a esta. O dito Réu morreu num combate entre as forças realistas e as forças insurgentes, o que torna curiosa esta defesa, por  tratar de um defunto. Justifica-se porém pelo valor da honra no mundo de Antigo Regime, no qual a reputação e a lealdade ao rei contam não somente para o engrandecimento do indivíduo, mas para a da Casa, da Família. Vale lembrar que os homens não se compreendiam, ou se identificavam e relacionavam politicamente enquanto indivíduos, mas como corpos, onde incidiam diversas identidades. Daí a grande mácula adquirida por um culpado de lesa-majestade. Segue abaixo o trecho com que Aragão e Vasconcelos inicia sua defesa. Interessante atentar ao uso da palavra classe, indicando prestígio do Réu, e conseqüentemente, a suma importância adquirida pela honra, visto que tamanha qualidade não deve-se somente aos feitos individuais, mas aos serviços e feitos de heroísmo e lealdade de seus descendentes:
“É a vida, sem dúvida, precioso bem; mas a honra é de maior monta, principalmente para as classes primeiras da sociedade; é bem de tal qualidade que aspiramos conservá-lo ainda depois da vida; saboriamos antecipadamente na imaginação o gozo que a natureza nos nega e até preferimos a mesma vida que é realidade a fama posterior que nos não pode chegar e que só existe quando já nós não existimos. É demais um bem expansivo que afeta aos que nos tocam pelos laços de parentesco. É o bem de toda uma família que cora ao nome do membro dela que degenerou dos seus.  Em todos os mais crimes é o fim da vida do Réu o fim do processo; quem pagou a natureza a forçosa dívida, saldou também as contas da sociedade. Mas se falham dois dos motivos justificantes do mal da pena, quais são a emenda do culpado, promovida pelo saudável temor do castigo próprio e a necessidade de desassustar os mais, fazendo impossível a ulterior comissão dos crimes com a morte ou absoluta separação do delinqüente de entre eles, sobra ainda o terceiro e principal fundamento da teoria das penas e exemplo dado aos outros para se não abalançarem a feitos vedados, como o delinqüente. Eis porque a Lei nos crimes atrocíssimos de lesa-majestade prossegue ao Réu ainda depois de morto; se já não tem pega sobre a sua sensibilidade, tem sobre a de sua família. Esta consideração pode dissuadir um cidadão brioso da comissão do delito. Que importa que escapa ele aos golpes da infâmia, por mais não sentir, se na fantasia apresenta e vê que o mal incorrido abrange a todos os que lhe são caros? São estas as razões  que conduzem a minha pena a defender a memória do Réu, falecido, o Primeiro Tenente José Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque.” (Coleção Documentos Históricos, volume CVIII, p.235-236)
Lendo texto sobre a visão que os “estrangeirados” do século XVIII tem de Portugal. Parece comum o diagnóstico sobre a situação de atraso e arcaísmo da sociedade portuguesa – em comparação com as potências mais avançadas da Europa - entre esses homens. Mais interessante e profunda, porém, é a visão que  tem de Portugal um viajante estrangeiro, no ano de 1726. Segue abaixo o trecho, onde atenta-se a religiosidade arcaica, numa interessante oposição entre “religião” e “superstição”:
“Este país é mais aprazível do que proveitoso, e proporciona mais Delicadezas do que satisfação das necessidades da vida, (...): O povo é olhado sobranceiramente como indolente, pobre e orgulhoso, muito zeloso, mas mais crédulo e supersticioso do que religioso. Os acontecimentos mais naturais passam entre eles por milagres, e estão firmemente persuadidos de que os Céus sempre arranjam qualquer coisa de especial para o seu Deus.” (Ana CARNEIRO, Maria Paula DIOGO e Ana SIMÕES, Imagens do Portugal Setecentista – Textos de estrangeirados e de viajantes IN Penélope, nº 22, 2000, p.81)
Após resolver algumas pendengas do meu pai, consegui enfim encerrar a leitura e fichamento da curta defesa de José Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque. Como já havia ressaltado, destacam-se os argumentos relacionados a honra, a qualidade (ou classe) do Réu e os argumentos sobre a “honestidade” da dissimulação sob a opressão de um governo ilegítimo. Este último, topos do pensamento político pós-Maquiavel. Isso vai dar caldo.
Só falta mais um Albuquerque, o Luís, irmão do Francisco. Talvez seja a defesa mais rica e mais trabalhosa de se fichar. Espero terminá-la amanhã à noite e segunda. Quinta e sexta vou finalmente à BN fichar o Ortega y Gasset. Animado para amanhã!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

10/01/2011

Passando os olhos na biografia de D.José, escrita por Nuno Gonçalo Monteiro. Nada demais a refletir.

Cheguei em casa sem muita disposição para o estudo. Amanhã vou a Biblioteca Nacional ver “Idéias e Crenças”, do Ortega y Gasset. Espera que renda bons frutos, ainda tenho que dar conta do trabalho da Norma.

domingo, 9 de janeiro de 2011

09/01/2011

Ainda lendo a defesa de Francisco Cavalcanti e Albuquerque. Cada vez mais empolgado em preparar uma comunicação para o seminário de Maquiavelismos. “Maquiavelismo e Dissimulação Honesta nas defesas dos insurrectos pernambucanos de 1817”. As defesas refletem em torno de argumentos e conceitos clássicos, como por exemplo, das formas de governo [ausência de autoridade é igual a anarquia, argumento construído tomando em consideração a metáfora do corpo e a autoridade com representação enquanto cabeça]. A autoridade é natural, legitimada pela tradição e por uma lei externa aos homens. A princípio, as únicas referências mais modernas são aquelas referentes a idéia de delito e de prova, embora a “representação” dos indivíduos ainda sirva como argumento para validar ou não um testemunho.
Enfim, acabei de fichar esta maldita defesa. Sem mais nenhuma grande novidade, sem falar na tal Justificação do dito cujo que preciso achar nos volumes.

sábado, 8 de janeiro de 2011

08/01/2011

Um dia pouco produtivo, decorrente dos abusos de ontem. Lendo “o conceito de povo em Portugal”, de Fátima Sá, onde percebe-se a conservação, nos primórdios do século XIX, do sentido tradicional da palavra “povo”, inclusive utilizando como referência às  Cortes de Lamego. Lembrando que este referencial também serviu aos presos pernambucanos na Bahia, ao discutirem o significado da palavra “Classe”. A permanência dos sentidos tradicionais e a referência ao passado demarca a dificuldade que o mundo luso-brasileiro possui de pensar em termos de progresso. Não à toa, o movimento constitucional vintista fora alcunhado de Restauração. Cabe porém dimensionar essas permanências, pois existem mudanças nas concepções de sociedade e poder. A modernidade não pode servir de diapasão a análise, embora as referências modernas sejam uma referência comparativa de suma importância para perceber a recepção das Luzes no mundo luso-brasileiro.
A permanência dessa idéia pejorativa do povo enquanto massa ignara, em contraposição a uma elite de bom nascimento e apta ao exercício da política ainda permanece, de determinada forma, enquanto um preconceito das classes médias e elites mais tradicionais. O princípio da soberania popular me parece que sempre foi um engodo discursivo, pelo menos no que se refere ao Brasil.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

06/01/2011

Lendo “Uma história da Justiça”, de Paolo Prodi. Os aspectos sincrônicos e diacrônicos devem ser considerados não somente no que se refere aos aspectos discursivos, mas também na consideração da experiência histórica concreta, à medida que novas circunstâncias históricas, ao mesmo tempo em que impõe a necessidade de novas práticas e soluções, não eliminam as antigas. Implica, portanto, em pensar o redimensionamento do costumeiro ante o novo. O estudo do pensamento político e jurídico implica em pensar as concepções não somente  teóricas, mas também práticas com que os homens se relacionavam com a realidade em que se encontravam. Nesse sentido, é de suma importância refletir o lugar do sagrado nas relações do homem com o mundo no decorrer da época moderna, e isso implica em pensar de que forma a organização e estruturação da vida social (as concepções que surgem e dimensionam as relações entre os indivíduos e que permitem e especificam uma determinada vida social) no processo de sua complexificação relacionam-se com o lugar do sagrado nessa sociedade. Pensar a secularização das representações!
Voltando às defesas. Cada vez encontrando mais referências aqueles “homens sem representação”, de extração social baixa. Mesmo a palavra “classe”, afirmada por Carlos Guilherme Mota como uma evidência vocabular da mentalidade “ajustada” de Aragão e Vasconcelos, aparece com a acepção pejorativa, referindo-se a “qualidade”dos indivíduos em questão. Ou seja, uma concepção tradicional de sociedade utilizado como argumento jurídico, e muitas vezes, assim como as constantes alusão a reputação e principalmente a consideração de valores  
O que será o tal “Clube da Rua dos Queimados”, que tanto aparece na defesa do Francisco Cavalcanti e Albuquerque,  que nunca li em bibliografia alguma? Muitas questões...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

03/01/2011

Lendo Ortega y Gasset no Real Gabinete, meio sem rumo. A idéia de geração em “O tema do nosso tempo” reflete uma preocupação própria do tempo do filósofo, principalmente no que se refere à importância adquirida pelo cartesianismo e o pensamento científico na virada do XIX para o XX. Ou seja, é uma crítica ao racionalismo, própria das discussões filosóficas e epistemológicas relacionadas à pós-modernidade. Ainda não sei como pensar tais categorias para a minha pesquisa, ou para a literatura que a informa.
Estou cansado. Vou para a casa ler minhas fontes.
Começando a fichar a defesa de Francisco de Paula Cavalcante e Albuquerque. Parece bem mais interessante do que a de João Luís Freire, até pela posição social mais elevada. Reflete mais explicitamente as concepções de sociedade em voga no período. Uma interessante reflexão sobre o papel da educação na constituição do homem. Muitas referências à razão e a natureza e uma passagem sobre a relativização dos julgamentos morais de acordo com as circunstâncias (“pois que o bem e o mal é mais relativo que o absoluto; e o que debaixo de um ponto de vista classifica-se entre os crimes debaixo de outro remonta a virtude.”) Não sei, mas tem algo me dizendo que devo voltar aquelas obras sobre dissimulação honesta do Seiscentos. Na defesa do Luís Francisco de Paula Cavalcanti, o Aragão também fala em dissimulação. Será um bom caminho para pensar uma proposta de comunicação para o colóquio dos Maquiavelismos?
Na quarta, vou pegar os materiais de Latim e Grego com o Jean. Enquanto isso, o Google tem sido uma santa ferramenta. Outro dia, descobri a tradução de uma frase e um erro de autoria (Aragão atribuía a frase a Plautus, mas segundo os artigos do Google, é de Terêncio. Ainda não sei o que fazer com isso...); e hoje, a tradução de uma frase que vinha sem referência de autor. Era de Horácio. Quando eu começar a aprender latim, isso vai ficar mais divertido.
Vou voltar às defesas.

domingo, 2 de janeiro de 2011

02/01/2011

Ainda sem saber muito bem o que fazer, li alguns capítulos da tese do Villalta, buscando informações e formas de lidar com os letrados do mundo luso-brasileiro e as concepções políticas que os alimentavam. Tive algumas idéias sobre a recepção das idéias ilustradas, principalmente no que se refere à atenção a ser dada ao contexto político-social  imediato (no meu caso, talvez pensar as práticas institucionais em curso, às quais a tese do Álvaro de Áraujo Antunes pode me servir) e a tradição textual própria do mundo luso-brasileiro. 
Andava meio perdido e desanimado no fichamento das Defesas do Aragão e Vasconcelos. Para tentar dar uma animada, acabei fazendo um micro-guia a partir da análise do Carlos Guilherme Motta. Algumas poucas referências equivocadas, deve ser culpa da edição. Devo voltar aos fichamentos amanhã. Também tenho que ler o Ortega para o trabalho da Norma. Dias cheios pela frente.
Foi um bom dia de estudo, após uma temporada de bloqueio e desânimo. Espero que continue assim.